Entre o mouse e a enxada

O conceito de “banalização do mal”, cunhado por Hannah Arendt, talvez explique a acomodação geral em torno dos descaminhos da Educação brasileira. Todos os absurdos parecem totalmentenormais: evasão, analfabetismo absoluto, analfabetismo funcional, pouca habilidade matemática,escolas sem computadores, alunos sem internet.

É claro que não estou falando do andar de cima, como diz o Elio Gaspari. Mas dos “outros

brasileiros”. Daqueles que começam a estudar mais tarde; que não podem pagar pelo ensino; quenão têm internet nem computadores em casa, e muito menos quem possa iniciá-los e orientá-los no uso desses equipamentos. Dos que vão abandonar a escola e que terão que se sustentar com a força física, com sorte se conseguirem passar os dias atrás de um balcão, mas quase sempre condenados a virar massa com enxada nas obras, ou varrer as ruas da cidade.

Nada que desmereça essas profissões, desde que sejam exercidas por escolha, e não por falta dela.

Em 2008, na Alemanha, assisti ao desmonte de um prédio de mais de 10 andares, feito por 2 operários. Dois. E, claro, muita tecnologia. Além dos equipamentos que substituem ferramentas, como marteletes, desaparafusadeiras e serras, eles operavam pequenas pás-carregadeiras, guindastes, caçambas… Tudo limpo, remoto como um videogame, e com um ritmo assustador.

Aliás, nem no campo mais se usa a força física. No lugar de mãos e peneiras colhendo café,

cortando cana e preparando o terreno, o que se vê são máquinas cada vez mais sofisticadas, muitas delas comandadas por sinais de satélite com base em geo posicionamento. A ordenha do leite segue pelo mesmo caminho. Não existe mais o tal balde ao pé da vaca. Os animais têm um chip implantado sob o couro e dialogam com os equipamentos, permitindo o acompanhamento da saúde, produtividade, nutrição e qualquer outro indicador desejado.

Peão, no mundo atual, só existe em tabuleiros de jogos e no mundo dos espetáculos.

O que nós brasileiros - não cada um de nós, no particular, mas nós sociedade - esperamos para o futuro do Brasil, onde nossos filhos estarão por sua própria conta e risco?

Nossas escolas são pródigas na produção de peões. Peões que, por falta cada vez maior de funções desqualificadas no mundo informatizado, acabam se tornando peões do tráfico, das milícias e da criminalidade.

Ao invés de melhorar o ensino público, nossos governantes incentivam setores com baixa

produtividade a continuar contratando mão de obra desqualificada para movimentar a economia. E assim a doença social se realimenta.

Neste cenário assombroso, existem regras arcaicas que proíbem o uso de celulares dentro de escolas. Ao invés de integrar sua funcionalidade e tecnologias à Educação, exorcizam-nos como se fossem a reencarnação do mal. Por extensão, aplicam as mesmas regras aos videogames e os demonizam. Parecem ignorar que adentramos em outra era. Que quase toda essa tecnologia que planta e colhe a soja, ordenha vacas e constrói prédios com eficiência, deriva dos games e dos smartphones vetados em algumas escolas particulares e na grande totalidade das escolas nas periferias.

Passamos décadas acreditando que o futuro do Brasil seria alimentar o mundo. E parece que esse vaticínio se tornou realidade: nos tornamos uma nação de agricultores e mineradores.

Mas a paz social só virá se os peões forem “exportados” para limpar as fossas dos nossos

clientes. Porque lá, sem formação, só chafurdando no trabalho que ninguém quer fazer.

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